Pentest obrigatório para instituições do Banco Central: o que a BCB 538 e a CMN 5.274 exigem
Teste de intrusão independente, ao menos uma vez por ano. O que as Resoluções BCB 538/2025 e CMN 5.274/2025 pedem, o que o relatório precisa mostrar e como escopar sem pagar duas vezes.

O que mudou: pentest anual deixou de ser boa prática e virou obrigação
Até 2025, muita fintech tratava teste de intrusão como item de checklist de cliente ou de auditoria: fazia quando um parceiro pedia, guardava o PDF e seguia em frente. As Resoluções CMN nº 5.274/2025 e BCB nº 538/2025, publicadas em dezembro de 2025, mudaram esse cenário. Elas atualizam a política de segurança cibernética das instituições autorizadas pelo Banco Central (a base vinha das Resoluções CMN 4.893/2021 e BCB 85/2021) e dão ao pentest uma regra própria: ele deve ser feito no mínimo uma vez por ano, por empresa ou profissional independente, com documentação formal dos resultados e dos planos de ação. O prazo de adequação para instituições já em operação foi 1º de março de 2026.
Se a sua instituição passou dessa data sem um teste documentado, a pergunta já não é "se", e sim "quando e com qual evidência". Se fez o teste em 2026, o próximo ciclo vence em 2027 e o supervisor vai comparar os dois relatórios. Este guia resume o que as normas pedem, o que ainda convém confirmar no texto oficial, como escopar o teste com um exemplo concreto, o que costuma reprovar um relatório e como escolher quem vai executar.
Quem está no alcance
As resoluções se aplicam às instituições financeiras e de pagamento autorizadas a funcionar pelo Banco Central: bancos, cooperativas de crédito, corretoras e distribuidoras de valores, instituições de pagamento, sociedades de crédito direto (SCD), sociedades de empréstimo entre pessoas (SEP) e demais entidades do Sistema Financeiro Nacional. A CMN 5.274 trata das instituições sob a regulação do Conselho Monetário Nacional; a BCB 538 cobre instituições de pagamento e demais autorizadas pelo Banco Central. A regra depende do tipo de autorização, então confirme o enquadramento exato com o jurídico ou o compliance. O porte não é isenção: ele muda a profundidade do escopo, não a existência do teste.
O que as normas exigem sobre pentest
Não conseguimos abrir o texto oficial no portal de normativos do Banco Central (a página depende de JavaScript). Os pontos abaixo vêm de análises de escritórios de advocacia e de empresas do setor financeiro que citam as resoluções, e as fontes concordam entre si nos itens principais.
- Periodicidade mínima anual. O pentest deve ocorrer, no mínimo, uma vez por ano. Mudança relevante de ambiente (migração de nuvem, novo produto, nova integração crítica) justifica teste complementar.
- Independência. A execução cabe a empresa ou profissional independente de quem construiu e opera o ambiente testado. Varredura automática interna não substitui o teste.
- Documentação formal. Resultados e planos de ação para os riscos encontrados precisam ser formalizados, e o tema deve chegar à governança da instituição em relatórios periódicos.
- Sistemas críticos no escopo. As normas tratam os serviços da RSFN, incluindo Pix e STR, como críticos, e ampliam os controles para sistemas adquiridos ou desenvolvidos por terceiros. Na prática, o teste precisa justificar a cobertura dessas interfaces e dependências.
- Guarda por cinco anos. Várias análises do setor reportam que a documentação do teste e os planos de ação devem ficar disponíveis ao Banco Central por cinco anos. Como não verificamos o artigo no texto oficial, trate o prazo como orientação forte e confirme o dispositivo exato com o jurídico antes de fixar a política interna.
Outros controles entram no mesmo pacote e costumam aparecer no escopo do teste: autenticação multifator em acessos administrativos, trilhas de auditoria íntegras, gestão de certificados e chaves criptográficas, correção periódica de vulnerabilidades, isolamento de redes críticas e regras mais rígidas para contratação de serviços de nuvem.
O que a norma não faz é ditar o formato do relatório. Exploração demonstrada, mapeamento para os controles e reteste são recomendações de boa prática que tornam o documento defensável, não cláusulas que citamos como texto da resolução.
Exemplo prático: escopo de uma instituição de pagamento
O caso abaixo é hipotético e serve só para mostrar o raciocínio. Imagine uma instituição de pagamento de médio porte, com carteira digital em app móvel, APIs de integração para lojistas, conexão ao Pix e infraestrutura em nuvem.
| Ativo | Por que entra | Foco do teste |
|---|---|---|
| App móvel (iOS e Android) | Acesso do cliente final a saldo e transferências | Autenticação, armazenamento local, pinning, lógica de limite |
| APIs transacionais e de lojistas | Movimentam dinheiro e expõem dados | Autorização por objeto (BOLA), limites, idempotência, mass assignment |
| Integração Pix / mensageria com a RSFN | Serviço tratado como crítico pela norma | Segregação de rede, MFA administrativo, validação de mensagens |
| Painel administrativo e back-office | Privilégio alto, alvo de fraude interna | Controle de acesso, trilha de auditoria, sessão |
| Nuvem (contas, IAM, storage, segredos) | Hospeda os sistemas acima | Permissões excessivas, segredos expostos, rede entre ambientes |
| Software e SaaS de terceiros | Controles se estendem a sistemas adquiridos | Contrato e autorização de teste, configuração, integração |
Nesse exemplo, um teste que cobrisse só o site institucional deixaria de fora cinco das seis linhas da tabela. É exatamente esse tipo de lacuna que o auditor encontra ao cruzar o escopo com o inventário de ativos. Para as APIs, o roteiro do guia de pentest de API pelo OWASP API Top 10 ajuda a definir o que testar.
O que o Banco Central e o auditor esperam versus o que um scanner entrega
| O que precisa estar no relatório | Relatório de scanner | Pentest manual bem feito |
|---|---|---|
| Independência de quem desenvolve e opera | Muitas vezes gerado pela própria equipe | Equipe externa, com declaração de independência |
| Evidência de exploração | Lista de possíveis vulnerabilidades | Request/response, passos reproduzíveis e impacto demonstrado |
| Falhas de lógica de negócio e autorização | Não detecta | Foco central do teste |
| Encadeamento de falhas | Cada item isolado | Cenário de ataque do acesso inicial ao impacto |
| Plano de tratamento | Sugestão genérica | Responsável e prazo por achado, pronto para a diretoria |
| Reteste | Novo scan | Status por achado: corrigido, parcial, pendente, risco aceito |
| Rastreabilidade | PDF solto | Escopo, metodologia e evidências arquivados |
A diferença entre as duas colunas aparece em detalhe no comparativo scanner, pentest ou bug bounty.
O que o relatório precisa mostrar (na prática)
Para sobreviver a uma auditoria interna, externa ou a uma solicitação do supervisor, o relatório precisa responder a três perguntas: o que foi testado, o que foi encontrado e o que foi feito a respeito. Recomendamos, e entregamos por padrão:
- Escopo e regras de engajamento que batam com o inventário de ativos e o diagrama da arquitetura.
- Metodologia nomeada (OWASP WSTG, PTES, NIST SP 800-115).
- Evidência de exploração por achado, com impacto de negócio descrito.
- Mapeamento regulatório, uma tabela ligando cada resultado aos controles das resoluções (autenticação, segregação, gestão de vulnerabilidades, proteção de chaves).
- Plano de tratamento com responsável e prazo, pronto para a alta administração.
- Reteste documentado, com data e status por achado.
- Atestado identificando a equipe independente e o período do teste.
Muitas instituições reaproveitam o mesmo pacote para o PCI DSS. Veja o que o auditor de cartões espera em Pentest para PCI DSS 4.0 e BACEN.
Cronograma sugerido: do kickoff ao arquivo
Um ciclo completo cabe em cerca de oito a doze semanas, dependendo do escopo. Use como ponto de partida:
- Semana 0 a 1: preparação. Atualize o inventário de ativos, defina responsáveis, separe contas de teste (usuário comum, lojista, administrador) e confirme o que é de terceiros.
- Semana 1 a 2: autorizações. Formalize o escopo, as regras de engajamento e as autorizações de provedores de nuvem e de fornecedores cujos sistemas serão tocados.
- Semana 2 a 5: execução. Teste manual, com canal direto para achados críticos, que não devem esperar o relatório final.
- Semana 5 a 6: relatório. Entrega com evidências, mapeamento e plano de tratamento; reunião de apresentação com tecnologia e risco.
- Semana 6 a 10: correção. Os times tratam os achados por prioridade.
- Semana 10 a 12: reteste e fechamento. Reteste por achado, atestado final e arquivo de todo o material.
- Depois: governança. Leve o resultado à diretoria, registre decisões de risco aceito e guarde o dossiê em local recuperável.
Motivos comuns de reprovação
- Apresentar scan de vulnerabilidades como pentest.
- Contratar a mesma equipe que desenvolveu ou opera o sistema, o que compromete a independência.
- Testar só o site institucional e deixar de fora APIs, app móvel e back-office.
- Escopo que não bate com o inventário de ativos.
- Relatório sem plano de tratamento nem responsáveis.
- Achados críticos sem reteste, ou "corrigidos" apenas com regra de WAF.
- Não arquivar relatório, plano de ação e evidências de forma recuperável.
- Fazer o teste uma vez e esquecer: o ciclo é anual.
Como escolher quem executa
Peça à proposta respostas objetivas. O checklist para contratar um pentest traz dez perguntas; as que mais pesam para uma instituição regulada são:
- A equipe é independente de quem desenvolve e opera os seus sistemas?
- O teste é manual? Peça um relatório de exemplo anonimizado e confira se há evidência de exploração.
- O relatório traz mapeamento para as resoluções do Banco Central e plano de tratamento?
- O reteste está incluído? Quantas rodadas, e em qual janela de tempo?
- Quem executa tem experiência com APIs financeiras, app móvel e nuvem?
- Como o fornecedor protege os dados e as evidências que coleta durante o teste?
- Como serão tratados achados críticos durante a execução?
Quanto ao preço, ele varia com o número de aplicações, APIs e o modelo de teste (caixa-preta, cinza ou branca). As faixas reais estão em Quanto custa um pentest em 2026. Para entender os modelos, leia O que é pentest.
Como a Pentest Machine ajuda
Fazemos pentest manual com relatório pensado para auditoria: evidência de exploração por achado, mapeamento para as resoluções do Banco Central, plano de tratamento e reteste incluso. Se você precisa fechar o ciclo de 2026 ou planejar o de 2027, peça uma proposta: respondemos com escopo e prazo em até um dia útil.
Perguntas frequentes
O pentest é obrigatório para fintech pequena?
As normas valem para as instituições autorizadas pelo Banco Central no alcance das resoluções, independentemente do porte. O que muda com o tamanho é o escopo e a profundidade. Confirme o enquadramento com compliance ou jurídico.
Um scan de vulnerabilidades basta?
Não. As normas falam em teste de intrusão e exigem independência e documentação formal. A leitura de mercado é que o supervisor distingue relatório de scanner de relatório com exploração manual documentada.
Quem pode ser a equipe independente?
Empresas ou profissionais sem conflito de interesse com o desenvolvimento e a operação do sistema testado. Uma equipe interna que também constrói o sistema tende a não atender ao requisito. Mantenha o registro de quem executou e de qual vínculo existe com o ambiente.
Quanto tempo devo guardar o relatório?
Análises do setor indicam cinco anos para a documentação e os planos de ação. Valide o prazo exato com o jurídico e registre-o na política interna de retenção.
O teste precisa cobrir Pix?
Se a instituição opera ou se conecta ao Pix, ao STR ou à RSFN, esses serviços são tratados como críticos pelas normas e devem estar no escopo, ou o escopo precisa justificar por que não estão.
Posso fazer o pentest uma vez e usar o relatório por dois anos?
Não. A periodicidade é no mínimo anual, e mudanças relevantes de ambiente justificam um teste complementar. Planeje o ciclo de 2027 já agora para não repetir a corrida de 2026.
O reteste conta como outro pentest?
Não. O reteste verifica se cada achado foi corrigido e fecha o ciclo de tratamento. Ele complementa o pentest anual, mas não o substitui.
Posso testar sistemas de fornecedores?
Só com autorização contratual e do provedor. Combine o escopo e as regras por escrito antes de testar qualquer ativo que não seja seu, e registre isso no relatório.